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De olhos bem fechados para a farra em Nova York

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Ilustração: The Intercept Brasil/Andre Coelho/Bloomberg/Getty Images

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Bolsonaro sumiu. Ficou deprimido e abandonou o emprego. Para o país, nada mudou, já que o futuro ex-presidente nunca foi muito afeito ao batente. Nos 4 anos de mandato, Bolsonaro se comportou como se estivesse em campanha eleitoral permanente, atacando adversários e as instituições, passeando de moto, jet ski e confraternizando com a sua criação de gado no cercadinho. A impressão que se tem é que em poucas semanas como presidente eleito, Lula já acumulou mais horas trabalhadas como presidente do que Bolsonaro nos quatro anos de mandato.

No noticiário, Lula já é tratado como presidente empossado. O destaque não tem sido o boicote do governo Bolsonaro ao processo de transição nem os milhares de criminosos que permanecem em frente aos quartéis pedindo um golpe militar para impedir a posse do novo presidente. O que tem dominado o noticiário é o mimimi dos Faria Limers com a sinalização de que Lula irá furar o teto de gastos — esse dispositivo anti-pobre que Temer instalou no governo — e a carona que o presidente eleito pegou no jatinho de um amigo empresário para ir à COP 27, no Egito.

Apesar de não haver qualquer crime na carona, de fato, não é prudente para um governante eleito viajar no jatinho de um grande empresário com grandes interesses. É óbvio que o fato deve ser noticiado, mas as circunstâncias em que ele ocorreu deveriam ser pesadas. O que se viu foi uma reação desproporcional, com o noticiário sendo tomado por manchetes e colunas de opinião histéricas, dando ares de crime ao episódio. O mesmo aconteceu quando Lula sinalizou que iria furar o teto de gastos para bancar os programas sociais, o que nada mais é do que uma promessa feita por ele em campanha. É um “mau começo”, disse o editorial da Folha e também os colunistões mais badalados da grande imprensa.

As circunstâncias não deram muitas opções para Lula participar do evento. A equipe da Polícia Federal, que faz a segurança do presidente eleito, recomendou um voo particular. Claro, ele não poderia embarcar em voo comercial e correr o risco de ser atacado por um bolsominion alucinado. Mas um voo particular ao Egito custa uma fortuna e o PT alega não ter recursos para financiar as viagens programadas para acontecer antes da posse. As verbas do fundo eleitoral também não poderiam ser usadas após a eleição. Diante da falta de opções, Lula calculou que seria melhor arcar com o custo político da carona do que ficar de fora de um evento de grande importância para o Brasil e o mundo.

O episódio ganhou as grandes manchetes e o escrutínio intenso do colunismo nacional. Houve manchete afirmando que a carona no jatinho “ofuscou” a passagem do presidente eleito pela COP 27, o que parece ser mais um desejo do que um fato. Lula, mesmo sem mandato, foi tratado como a grande estrela do evento pela imprensa internacional. O New York Times classificou sua passagem pelo evento como “exuberante”. A Bloomberg disse que ele foi “recepcionado como herói”. A Reuters afirmou que ele foi “recebido como um astro do rock”. O Brasil deixou de se tornar motivo de chacota internacional para voltar a ser tratado como um ator global relevante. Apenas no noticiário brasileiro o sucesso de Lula no Egito foi ofuscado pelas manchetes sobre o jatinho.

O escarcéu em torno da carona não contribui em nada para o país, mas alimenta o ego do jornalista viciado no doisladismo — aquele que sente uma necessidade mortal de mostrar ao público que é um profissional isento capaz de bater em Lula e Bolsonaro, mesmo que para isso seja necessário forçar a barra. Alimenta também o imaginário dos lunáticos criminosos que se aglomeram em frente aos quartéis e que não aceitam a vitória de Lula.

O estardalhaço em torno da viagem de um presidente que nem tomou posse foi inversamente proporcional ao barulho feito em torno da viagem que ministros do STF, o governador de São Paulo, o presidente do Banco Central e integrantes do TCU fizeram para Nova York para participar de um evento empresarial. O evento foi organizado pelo Lide, uma empresa de João Doria Jr. Esse episódio, sim, mereceria grande espaço na imprensa, mas pouco se falou. Revirei a internet atrás de textos críticos ao evento e só encontrei dois: uma coluna de Conrado Hubner, na Folha, e outra de Ricardo Mendonça, no Valor. A única coisa que ganhou destaque foram as agressões de bolsominions alucinados contra os juízes em solo americano. Sobre o evento em si, quase nada.

Mais da metade do STF foi para Nova York com tudo pago pela empresa do político e empresário João Doria Jr. Também não há crime nisso, mas a promiscuidade entre juízes do principal tribunal do país com empresários em solo estrangeiro deveria ser motivo de intenso escrutínio do jornalismo brasileiro.

Seis ministros estiveram presentes no convescote empresarial, representando mais da metade do Supremo, para falar sobre o tema “O Brasil e o respeito à liberdade e à democracia” sob a moderação do jornalista Merval Pereira. O evento foi patrocinado e apoiado por grandes bancos e empresas de diversos ramos de atividade: Banco Master, Acciona, Binance, Bracell, CNseg, Cosan, Eletra, J&F, Febraban, JHSF, Bradesco, Coelho da Fonseca e Grupo Safra. É no mínimo curioso que nenhuma das autoridades brasileiras presentes no convescote internacional, com exceção do chefe do Banco Central, tenha registrado a participação em suas agendas oficiais.

A empresa de Doria é especializada em conectar o empresariado com governantes e servidores públicos de alto escalão. Trata-se de uma empresa de lobby, uma atividade que não é regulamentada no Brasil, mas que Doria faz há muitos anos e só interrompeu quando decidiu pular para o lado político do balcão. Durante esse tempo, a empresa continuou sob o comando da sua família. Isso não deveria ser tratado com tanta naturalidade.

É desagradável ter que criticar o STF enquanto golpistas estão em frente aos quartéis pedindo o fechamento dele. Mas qual é o interesse para o país e para o povo brasileiro em ter mais da metade do tribunal confraternizando com a elite financeira, empresarial e política em um país estrangeiro? Absolutamente nenhum. Todos esses grandes empresários e políticos têm ou podem vir a ter algum interesse em casos julgados pelo STF. Como acreditar que haverá imparcialidade dos seis juízes presentes no evento quando um caso ligado a Doria ou seu grupo político cair no tribunal? E quando um caso do interesse dos grandes patrocinadores do evento tiver que ser julgado?

“Não basta ao juiz ser honesto, tem que parecer honesto”. Essa não é apenas uma frase de efeito. É um preceito básico da magistratura. É estranho que mais da metade do STF viaje com voo, hotel 5 estrelas, alimentação e transporte em Nova York pagos por grandes empresários e isso não ganhe as manchetes.

Essa flagrante promiscuidade foi tratada de forma lateral no noticiário, enquanto a viagem de um homem que ainda não exerce cargo público ganhou ares de escândalo. O fato é que Lula viajou para um evento de interesse público, enquanto o STF viajou para um evento de interesse privado. Mas apenas a viagem do presidente eleito mereceu destaque por parte dos jornalistões brasileiros que, curiosamente, são os mesmos que fecharam os olhos para os arbítrios da Lava Jato contra Lula e seu grupo político. Significa.

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